BR319? Por quê?

Alguns anos atrás, percorri grande parte da BR319. Vi as misérias, as malárias, e as mazelas do povo às margens da rodovia, e me pus a pensar seriamente na questão do asfaltamento da estrada. A BR319 é uma fonte de promessas desde 1973, quando nem eleição havia. A mídia, no embalo, quer muito saber quem vai, e quem não vai asfaltar a tal rodovia. “Uma ponte, uma estrada, outra ponte, e só mais uma ponte e a duplicação de outra estrada, e então o alimento vai chegar mais barato à sua mesa, o polo industrial vai escoar mais mercadorias e vai gerar mais empregos. Sua vida será melhor”.

Não é bem assim. Segundo o próprio Estudo de Impacto Ambiental da BR, “(...) representantes das indústrias de Manaus têm indicado que, no momento, a rodovia teria baixa importância para o Pólo Industrial de Manaus". (EIA, Vol. 1, p. 216) É mais barato escoar as mercadorias via porto (longe do Encontro das Águas, por favor). O resto do Brasil é que está errado de dar pouco valor às águas.

Se a única coisa que o governo levar à região da BR319 for o asfalto, é quase certo que todas as mazelas se agravem. A pobreza costuma ser maior à beira da estrada que à beira dos rios na Amazônia. As Unidades de Conservação criadas para dar viabilidade ecológica ao trecho, sequer tem sua situação fundiária regularizada. A concentração de terras e, portanto, de renda, nas demais áreas é altíssima. E o asfalto, por si só, seguramente não trará melhorias a essa situação. Antes do asfalto, há que se garantir muitos outros direitos básicos da população que vive nas cidades e povoamentos do sul do Estado, mas isso não dá voto em Manaus.

Promete-se a estrada, não se faz a estrada, põe-se a culpa no “meio ambiente”, e depois se promete novamente a estrada! É um ciclo lógico de expectativas e promessas que se repete a cada eleição em todas as áreas da vida com os mais variados “culpados”: na educação, na saúde, na mobilidade urbana e assim por diante!

Nessa eleição, saiba separar as motivações, e os pretextos dos candidatos. Os pretextos são sempre nobres, as motivações, nem sempre!